O que é terapia existencial
Em 1958, três editores publicaram em Nova York um livro chamado Existence. Rollo May, Ernest Angel e Henri Ellenberger reuniram ali, em inglês, textos de psiquiatras europeus: Ludwig Binswanger, Eugène Minkowski, Erwin Straus, Roland Kuhn. É desse livro que vem boa parte do que hoje se chama de terapia existencial.
O primeiro capítulo é de May e se chama "The Origins and Significance of the Existential Movement in Psychology". Apresenta a escola, mas não começa com uma definição. Começa com uma dúvida que, segundo May, muitos terapeutas carregavam sem dizer em voz alta.
A dúvida do consultório
"...estamos vendo o paciente como ele realmente é, conhecendo-o na sua própria realidade, ou estamos vendo apenas uma projeção das nossas próprias teorias sobre ele?"
— Rollo May, Existence, cap. 1, "The Origins and Significance of the Existential Movement in Psychology" (tradução nossa)
May não pergunta se a teoria está errada. Uma teoria pode ser coerente do começo ao fim e ainda assim não ter nada a ver com o homem concreto sentado do outro lado da sala. May até lhe dá um nome qualquer, Mr. Jones. E se justamente essa pessoa pedisse outro sistema?
Chama atenção também de onde a pergunta veio. May observa que essa abordagem surgiu espontaneamente em vários lugares da Europa e em escolas diferentes. Não houve um fundador com discípulos. Terapeutas de tradições diversas chegaram ao mesmo incômodo, cada um por conta própria.
Explicar e compreender
A psicologia do começo do século XX sabia explicar muito bem. O comportamento vinha de pulsões, de condicionamentos, de conflitos da infância. Cada sintoma tinha uma causa, e a causa estava sempre em outro lugar.
A terapia existencial não joga fora essas descobertas. O que ela questiona é o lugar que a explicação ocupa. Quem é explicado por completo vira um caso. Tudo o que diz passa a ser indício de outra coisa.
No mesmo livro, May escreve que apreender o ser de outra pessoa acontece num nível muito diferente de saber coisas específicas sobre ela. Dá para saber quase tudo sobre alguém e continuar sem vê-lo.
Daí uma inversão que May formula sem rodeios: a técnica vem depois da compreensão. Primeiro é preciso entender o mundo em que aquela pessoa vive. Só então faz sentido escolher o que fazer.
O que muda na conversa
Quando a pergunta deixa de ser "por que você é assim", a conversa muda de tempo verbal. A causa mora no passado. A existência está no presente e aponta para o que ainda não foi decidido.
Isso não torna a biografia irrelevante. A infância continua ali, as perdas também. Mas elas deixam de ser a última palavra sobre alguém e passam a ser o chão de onde a pessoa escolhe.
Há também um custo. Uma explicação alivia: se a causa está fora de mim, o que faço é só consequência. Sem essa explicação, a pessoa recupera a liberdade, e junto com ela a responsabilidade pelo que faz.
A pergunta que fica
A pergunta de May foi feita a terapeutas, mas não depende de consultório. Qualquer pessoa tem suas teorias sobre si mesma. Algumas vieram de livros, outras da família, outras de anos repetindo a mesma história.
Fica a dúvida para quem lê. Quando você se explica, está se vendo como é ou está vendo uma teoria que aprendeu a contar sobre si? E o que sobraria se você deixasse essa explicação de lado por um momento?
Epimelea é um aplicativo de terapia com um terapeuta de IA, na linha da escola existencial. A conversa segue de um encontro para o outro, num arquivo criptografado que pertence a quem o escreve.
O aplicativo: psicólogo IA, acompanhamento psicológico online
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