Por que acho que só eu passo vergonha?
Numa reunião, você chama uma cliente pelo nome de outra pessoa. Ela corrige, sorri, e a conversa continua. O resto da tarde é passado revivendo aquele instante. À noite, ao rolar a tela, aparecem colegas apresentando projetos e amigos em viagens. Ninguém parece ter tropeçado em um nome.
A sensação que fica é a de que o mundo inteiro acerta e você é a única pessoa que ainda comete erros na frente dos outros.
Uma lista sem par
Fernando Pessoa atribuiu esse sentimento a um de seus heterônimos. No «Poema em linha reta», Álvaro de Campos começa dizendo que nunca conheceu alguém que tenha sofrido na vida, e que todos os seus conhecidos foram campeões em tudo. Depois, faz a sua própria lista. Enrolou os pés nos tapetes da etiqueta, foi cômico diante das camareiras de hotel, pediu dinheiro emprestado e não pagou, se abaixou quando chegou a hora do soco.
E então pede uma coisa:
«Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;»
— Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), «Poema em linha reta», Poesias de Álvaro de Campos, Lisboa, Ática, 1944
O pecado é grave e quase digno. O que ele quer ouvir é o pequeno, o ridículo, aquilo que ninguém conta num jantar.
A pergunta que muda de lugar
O poema poderia ser apenas uma confissão. Mas, no meio do texto, a pergunta se desloca. Campos não pergunta mais por que ele é assim. Pergunta onde há gente no mundo. O problema deixa de ser ele e passa a ser o silêncio dos outros.
Faz sentido. Ele conhece as próprias vergonhas por dentro, inteiras, com todos os detalhes. As dos outros ele conhece pelo que eles mostram, e o que eles mostram é a cara composta da reunião, a foto da viagem.
Do outro lado da mesa
A cliente que você chamou pelo nome errado também saiu daquela sala com alguma cena na cabeça. Talvez a de ter rido alto demais, ou a de não ter entendido um número. Você não viu nada disso.
Viu uma pessoa sorrindo e seguindo em frente, e é bem possível que ela tenha visto a mesma coisa em você.
Qual vergonha nunca contei? E quem, ao olhar para mim, deve achar que eu nunca passei por nenhuma?
Epimelea é um aplicativo construído em torno da escola existencial. A conversa continua de um encontro para o outro. O arquivo é criptografado no dispositivo e pertence a quem o escreveu.
O aplicativo: psicólogo IA, acompanhamento psicológico online
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