Por que continuo me esforçando por algo que nunca chega?
Faz quatro anos que você estuda para o mesmo concurso. Ou que fica até mais tarde esperando a promoção que o chefe prometeu para o próximo ciclo. O resultado sai, e o seu nome não está lá. Na mesma noite você já fez as contas: mais um ano, talvez dois. Ninguém precisou convencer você.
Sete anos de pastor
Camões escreveu um soneto sobre essa experiência. A narrativa remete ao Gênesis: Jacob trabalha como pastor para Labão com o objetivo de casar-se com Raquel, filha deste. O poema enfatiza que o serviço é prestado a ela, não ao pai. A descrição do tempo revela como esses anos se passam:
«Os dias na esperança de hum só dia / Passava, contentando-se com vella»
— Luís de Camões, «Sete annos de pastor Jacob servia», Obras completas de Luis de Camões, v. II, 1843, Wikisource
Os sete anos existem em função de um único dia: o último. Os demais funcionam como caminho até ele.
A troca na tenda
Ao final do prazo, Labão troca Raquel por Lia. O soneto omite a raiva de Jacob e o diálogo com o sogro, indo direto ao que sucede: Jacob inicia mais sete anos de serviço.
A leitura convencional vê prova de amor. Há outra possibilidade. No momento da descoberta, Jacob enfrenta uma questão: o que representaram aqueles sete anos se o dia esperado não chegou? O novo prazo surge rapidamente e abafa essa indagação, pois recomeçar exige menos esforço do que examinar o passado.
Quando o prazo vira morada
A expressão «falta pouco» reorganiza a vida inteira. O fim de semana é sacrificado, a viagem é adiada, a conversa difícil com alguém próximo aguarda o resultado. Tudo parece provisório e, portanto, dispensa escolha consciente. O dia esperado assume a decisão.
Com o tempo, a função do esforço se altera. Inicialmente, era um meio para chegar ao destino. Após alguns anos, ele também passa a proteger. Enquanto se está no meio do caminho, ninguém questiona se esse caminho ainda pertence a você; nem você mesmo. Desistir parece trair os anos já investidos. Continuar aparece como a única forma de validar esse investimento.
E há o próprio dia esperado. No soneto, Raquel é quase apenas um nome. Jacob contenta-se em vê-la. Quando um único dia carrega tanto peso, torna-se difícil identificar exatamente o que se espera dele: aprovação, segurança, o olhar de alguém ou a sensação de ter finalmente chegado. Às vezes, o cargo ou o diploma ocupam o lugar de algo mais difícil de nomear.
O segundo contrato
O segundo prazo de Jacob não é erro. Algumas coisas exigem mais tempo. No entanto, ele foi assumido no mesmo dia da perda, sem pausa entre um e outro. Nada no soneto indica que Jacob tenha questionado se ainda desejava aquilo da mesma forma.
Qual é o dia que você espera? E com o que você paga cada dia até ele?
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