Por que desconfio de quem é gentil comigo
Um colega novo se oferece para cobrir o seu plantão no sábado. Não pede nada em troca. Você agradece, mas passa o resto do dia tentando decifrar o que ele deseja.
Ou uma vizinha deixa um bolo na sua porta. O doce está bom. Ainda assim, a primeira pergunta que surge é: quanto vou ficar devendo?
Um soneto de cor
Augusto dos Anjos publicou em 1912 um único livro, Eu. Nele está “Versos íntimos”, um soneto que muita gente sabe de cor sem lembrar de onde veio. O poema fala com alguém que acabou de perder a última ilusão, e ninguém foi ao enterro dela. Então vem o verso:
«A mão que affaga é a mesma que apedreja.»
— Augusto dos Anjos, «Versos intimos», Eu, Rio de Janeiro, 1912
No último terceto ele vai além: se alguém ainda tem pena da sua ferida, apedreje a mão que afaga.
Quem fala no poema
O soneto não discute se isso é verdade. Fala com a voz de quem já decidiu. O carinho e a pedrada vêm da mesma mão, então o carinho deixa de ser informação. Ele vira aviso.
Lido assim, o poema parece menos uma tese sobre a humanidade e mais uma regra prática. Alguém, em algum momento, foi acariciado e depois apedrejado pela mesma pessoa. Daquilo tirou uma lei: da próxima vez, não espero a pedra.
Muitas desconfianças começam desse jeito. Uma gentileza que veio com conta, uma ajuda cobrada anos depois. A regra que nasce dali faz sentido para aquele caso e poupa a mesma dor.
O custo da regra
Uma regra assim tem uma vantagem: nunca é desmentida. Se desconfio do colega e ele não queria nada, não descubro, porque já me afastei. Se ele queria algo, eu acertei. Nos dois casos ela sai confirmada.
O preço aparece em outro lugar. O bolo da vizinha chega e eu não consigo só comer o bolo. O plantão coberto vira dívida. A gentileza não chega aonde poderia fazer bem, porque a porta fechou antes.
E o soneto termina num ponto curioso. Quem segue a regra até o fim acaba apedrejando a mão que afaga, como temia que ela fizesse.
Antes de aplicar de novo
Não quero discutir com o soneto. Às vezes a mão que afaga é mesmo a que apedreja, e quem aprendeu isso aprendeu por motivo, mas toda regra foi escrita numa data, a partir de algumas pessoas.
Quando conferi essa regra? E de quem era a mão que a ensinou?
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