Por que digo que não ligo, mas continuo correndo atrás?
Você diz à amiga que abandonou a disputa pela vaga: «Tanto faz, nem queria tanto». No caminho de casa, abre o e-mail três vezes para conferir se chegou alguma resposta. À noite, volta a ler o currículo. Para os outros, e às vezes para si mesma, o assunto está encerrado. As mãos não receberam o recado.
Uma teoria descendo a ladeira
Eça de Queiroz termina «Os Maias» com Carlos e Ega caminhando por Lisboa ao entardecer, após passarem a tarde revendo a vida e chegarem a uma conclusão que lhes parece definitiva. Decidem andar devagar, com desdém. Ega diz que nem uma fortuna o faria apressar o passo.
Então Carlos olha o relógio. São seis e um quarto, e os amigos o esperam para jantar às seis, quando ao longe aparece um «americano», o bonde puxado a cavalos. Os dois apertam o passo, e Carlos vai dizendo, já sem fôlego:
«Com effeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ancia para coisa alguma...»
— Eça de Queiroz, Os Maias: episodios da vida romantica, vol. II, cap. VIII, Porto, Chardron, 1888 (Project Gutenberg)
Ega completa a lista, ofegante: nem o amor, nem a glória, nem o dinheiro, nem o poder. O bonde se afasta. Os dois disparam ladeira abaixo, e o romance acaba ali, com eles correndo.
O narrador não corrige ninguém
Eça poderia ter fechado com um comentário irônico. Não fecha. Deixa a frase e a corrida lado a lado, sem escolher qual delas é a verdadeira. Quem lê vê as duas ao mesmo tempo, coisa que os personagens não conseguem.
Dizer «não ligo» tem uma utilidade. Se eu não chegar, ninguém poderá dizer que perdi, porque eu nem estava tentando. A frase funciona como um seguro contra a vergonha de querer em voz alta e não conseguir.
Só que o corpo não assina esse seguro. Ele continua indo atrás. E fica o desconforto de viver em duas versões: a que fala e a que corre.
O que está no fim da rua
Repare no que faz Carlos correr. Não é a glória nem o amor. É um prato de paio com ervilhas e uns amigos esperando à mesa, coisas pequenas, quase vergonhosas de admitir depois de uma tarde de grandes conclusões.
Modesto demais para o discurso. Talvez por isso seja mais fácil dizer que não importa.
Atrás de que eu corro quando ninguém está olhando, e o que eu perderia se admitisse em voz alta que quero isso?
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