Por que eu desvalorizo aquilo em que sou bom
Alguém elogia algo que você faz bem e a resposta é automática: "não foi nada", seja a habilidade de cozinhar, a clareza ao explicar um tema ou o dom de fazer as pessoas rirem. Você sente que aquilo não tem valor. O que realmente importaria seria outra coisa.
O compositor e o assobio na rua
Em «Um homem célebre», conto do livro Várias histórias (1896), Machado de Assis apresenta Pestana. Ele compõe polcas que fazem sucesso em teatros, salões e nas ruas. Uma dessas obras chega a esgotar a primeira edição e, ao ouvir dois desconhecidos assobiando sua música, Pestana corre para casa "desesperado".
Nas paredes há Mozart, Beethoven, Bach e Schumann. À noite, ele toca as sonatas desses autores e espera produzir algo da mesma magnitude:
«Por que não faria ele uma só que fosse daquelas páginas imortais?»
— Machado de Assis, «Um homem célebre», Várias histórias, 1896
A ambição de Pestana oscila entre a grandiosidade e a modéstia:
«uma página que fosse, uma só, mas tal que pudesse ser encadernada entre Bach e Schumann.»
— Machado de Assis, «Um homem célebre», Várias histórias, 1896
A página imortal não surge. As polcas continuam a nascer quase sem esforço.
A régua emprestada
O talento de Pestana é real; suas polcas são "originais" e memoráveis. O problema é que esse não é o talento que ele deseja ter. Ele avalia a própria obra usando a régua dos mestres pendurados na parede. Por esse critério, tudo o que é fácil de produzir perde o valor.
Ele define o próprio dom assim:
«tinha as polcas por aventuras de petimetres.»
— Machado de Assis, «Um homem célebre», Várias histórias, 1896
Para Pestana, a facilidade com que cria músicas que a maioria não conseguiria compor é vista como leviandade, como algo típico de um "petimetre" frívolo.
Esse padrão se repete em muitas pessoas. O que exige esforço é percebido como valioso, enquanto o que flui naturalmente parece suspeito. Frequentemente, essa régua de medida não pertence ao indivíduo, mas a quem ele admirava, à família que preferia outra carreira ou a uma escola que premiava apenas um tipo de inteligência. Quem diz que seu talento "não é nada" costuma repetir uma avaliação externa assimilada antes mesmo de formar a própria opinião.
A aldeia e Roma
Irvin Yalom observa que escolher um caminho implica renunciar a outros. Pestana não renuncia. Ele aceita as polcas, sente "náuseas de si mesmo", promete abandoná-las, retorna a elas e entrega cada nova composição ao editor sem jamais assumir que aquilo faz parte de quem ele é.
Machado tem uma imagem para isso: o primeiro lugar da aldeia não contentava "este César", que preferia "o centésimo em Roma". A aldeia representa onde Pestana é efetivamente bom e Roma é o destino imposto pela régua dos outros.
Em terapia, essa divisão costuma aparecer no tom. A pessoa conta o que faz bem como quem pede desculpa, e o que gostaria de fazer como quem confessa. Às vezes basta notar a diferença e perguntar de onde ela veio.
O que os outros valorizam em mim, mas eu tenho vergonha de valorizar?
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