Por que eu finjo saber coisas que não sei
Alguém menciona um autor ou um termo técnico em uma reunião e você concorda com a cabeça, fingindo familiaridade. Logo depois, pesquisa o assunto no celular para não ficar para trás. Em outros casos, aceita tarefas acima da própria capacidade e tenta aprender na pressa, torcendo para que ninguém note a lacuna. O «não sei» chega à boca, mas não sai.
O professor de javanês
No conto «O homem que sabia javanês», publicado em 1911 na Gazeta da Tarde, Lima Barreto apresenta Castelo. Em uma confeitaria do Rio, ele conta ao amigo Castro sobre as artimanhas que usou na vida:
«Imagina tu que eu já fui professor de javanês!»
— Lima Barreto, «O homem que sabia javanês», Gazeta da Tarde, 1911
Castelo viu um anúncio, decorou parte do alfabeto em uma biblioteca e se ofereceu para dar aulas a um barão que possuía um livro de família escrito em javanês. Após dois meses, o barão desistiu das aulas e passou a pedir traduções. Castelo então inventou os textos:
«Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon.»
— Lima Barreto, «O homem que sabia javanês», Gazeta da Tarde, 1911
A engrenagem da farsa
Castelo não é punido. Pelo contrário: recebe presentes, casa, um cargo no ministério e até um posto em um congresso de linguística na Europa. Termina a história como cônsul em Havana. Ninguém jamais exigiu que ele falasse o idioma. O ministro o recomendava, os jornais exaltavam seu conhecimento e o genro do barão o admirava.
A mentira não se sustenta sozinha; ela depende de quem precisa acreditar nela. O barão queria cumprir uma promessa familiar, o ministério precisava de um especialista que não possuía e a cidade buscava um motivo de orgulho nacional. Exigir a prova do saber estragaria a conveniência para todos os envolvidos.
Quem finge raramente o faz no vazio. Geralmente há uma família esperando o filho brilhante, uma equipe que exige respostas imediatas ou um ambiente onde a dúvida é interpretada como fraqueza.
A perda da própria verdade
O barão recebe uma herança inesperada de um parente em Portugal e acredita que a sorte veio das histórias do livro traduzido. Sobre isso, Castelo confessa:
«O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.»
— Lima Barreto, «O homem que sabia javanês», Gazeta da Tarde, 1911
A fronteira entre o conhecimento real e a representação torna-se turva para o próprio ator. Castelo passa a viver com o medo constante de encontrar alguém que realmente fale javanês. E perdeu o lugar de onde poderia dizer, tranquilo, «isso eu não sei».
Na terapia, a mentira costuma ser menos relevante do que o que aconteceria após a admissão da ignorância: quem ficaria decepcionado, o que seria perdido e qual imagem de si mesmo desmoronaria.
Do que eu tenho medo se disser «não sei»?
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O aplicativo: psicólogo IA, acompanhamento psicológico online
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