Por que sinto que estou sempre fingindo ser alguém?
Você sorri quando um amigo conta uma boa notícia. O gesto acontece no momento certo e com a intensidade esperada. Logo depois, surge a dúvida: você está feliz ou apenas simulando a expressão de quem está feliz? No velório de um parente, ocorre o mesmo. Você chora, mas, ao mesmo tempo, observa se está chorando da maneira correta.
Não se trata de mentir para as outras pessoas. O incômodo nasce de não saber onde termina a representação e começa a identidade.
Fingir a dor que se sente
Fernando Pessoa inicia um poema com versos conhecidos:
«O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.»
— Fernando Pessoa, «Autopsicografia»
Muitas vezes, essa frase é interpretada como se o poeta fosse um mentiroso. No entanto, os versos finais indicam que a dor existe e é sentida «deveras». O poeta finge a própria dor verdadeira. Ele faz isso com tal precisão que a sensação real e a encenação se tornam inseparáveis.
Nesse contexto, o fingimento não anula o sentimento. É a percepção do próprio sentimento vista de fora.
Quem se vê de fora
Pessoa viveu essa fragmentação. Escreveu sob diferentes nomes, cada um com uma voz própria, sem que houvesse uma máscara escondendo um rosto único e verdadeiro.
A sensação de estar atuando raramente atinge quem engana os outros, pois quem engana sabe exatamente o que esconde. Ela surge em quem se observa enquanto vive, sentindo algo e, simultaneamente, assistindo a si mesmo sentindo. Ajusta o tom e mede o gesto. Esse segundo olhar não apaga a emoção, mas a transforma em cena.
O poema então chega ao leitor, que sente a dor da leitura, mas não a do autor:
«Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.»
— Fernando Pessoa, «Autopsicografia»
O poeta lidou com duas dores: a sentida e a escrita. O leitor experimenta uma terceira, a sua própria.
Se o peso está em sentir-se alguém apenas quando é observado, há outra página que trata do olhar alheio, enquanto esta trata do seu próprio olhar sobre você.
O que fica sem resposta
Pessoa não define a dor real. Talvez a pergunta fosse irrelevante para ele. Qual dos seus sentimentos você encena e, ainda assim, sente?
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