Por que tenho tantos sonhos e não realizo nenhum
A viagem ao Japão. O livro que deveria estar escrito. A cafeteria com o nome já escolhido. O curso de cerâmica. A mudança para o interior. De vez em quando, um desses planos reaparece no meio da noite com a mesma nitidez de dez anos atrás. Nenhum foi iniciado. E não há cobrança externa, porque nada foi prometido a ninguém.
Um quarto com vista para a rua
Em 1928, Fernando Pessoa assinou como Álvaro de Campos um poema extenso intitulado «Tabacaria». A cena se passa em um quarto, onde o poeta observa, através da janela, a tabacaria do outro lado da rua. Logo no início, ele faz um inventário peculiar:
«À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»
— Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), «Tabacaria», 1928
Não se trata de um sonho isolado, mas de todos eles. Ao longo do texto, o poeta reflete sobre tudo o que poderia ter sido, sobre os gênios que se julgam tais em mil sótãos, e sobre as filosofias que teria escrito. Tudo cabe naquele espaço fechado porque nada saiu dele.
O Esteves atravessa a rua
Perto do fim do poema, um homem sai da tabacaria guardando o troco no bolso, e o poeta o reconhece: é o Esteves, alguém desprovido de qualquer metafísica. O Esteves acena.
É uma cena pequena, quase cômica. De um lado, quem possui todos os sonhos do mundo. Do outro, quem foi comprar cigarros e os comprou. Pessoa não ridiculariza nenhum dos dois. Não afirma que o Esteves é mais feliz, nem que o poeta deveria descer a escada. Apenas coloca ambos na mesma rua, separados por um vidro.
Sonhos que se protegem
Um sonho que nunca começa permanece intacto. A viagem ao Japão não teve voo atrasado, o livro não tem capítulo mau, a cafeteria não fechou no segundo ano. Enquanto todos permanecem guardados, todos continuam possíveis simultaneamente.
Começar mudaria essa situação. Escolher o livro significa que a cafeteria, pelo menos por agora, se reduz a uma ideia antiga. Ter muitos sonhos pode ser uma forma de não perder nenhum. A janela é confortável justamente porque, dela, se vê a rua inteira.
Do lado de dentro do vidro
Toda escolha traz um pequeno luto. Qual desses sonhos eu evito começar, porque aí os outros virariam apenas sonhos?
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