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O cuidado de si em Foucault

Em 6 de janeiro de 1982, Michel Foucault abriu no Collège de France um curso que ocuparia o semestre inteiro. Publicado depois como A hermenêutica do sujeito (no Brasil, pela Martins Fontes, em tradução de Márcio Alves da Fonseca e Salma Tannus Muchail), o curso gira em torno de uma expressão grega: epiméleia heautoû. Os latinos disseram cura sui. Foucault disse souci de soi. Em português ficou "cuidado de si".

A primeira hora dessa aula faz uma coisa simples e incômoda. Pega a frase que todo mundo associa à filosofia grega, o "conhece-te a ti mesmo" do templo de Delfos, e mostra que ela não estava sozinha nem em primeiro lugar.

A frase de Delfos

O gnôthi seautón estava gravado no templo, e a história da filosofia fez dele um ponto de partida. Foucault lembra que, no seu contexto, a inscrição provavelmente não tinha nada de introspecção. Era um conselho a quem vinha consultar o deus: saber o que se pergunta, não pedir demais, lembrar que se é mortal.

Quando o preceito entra na filosofia, com Sócrates, ele entra acoplado a outro. Na Apologia de Platão, Sócrates se apresenta como alguém que passou a vida parando os outros na rua para perguntar se estavam cuidando de si mesmos. Não do dinheiro, não da reputação. De si. Ele se compara a um moscardo que o deus pôs no flanco da cidade para não deixá-la dormir.

Nessa leitura, o "conhece-te" é uma das formas que o cuidado de si assume, e não a principal. Primeiro vem a tarefa de ocupar-se consigo. O conhecimento aparece dentro dela.

Não é um estado de espírito

A palavra "cuidado" em português puxa para o afeto, para a gentileza consigo. Foucault trabalha para afastar esse sentido. Na mesma aula, ele descreve a epiméleia heautoû em três camadas.

É uma atitude geral: um modo de estar no mundo, de agir, de se relacionar com os outros.

É uma forma de atenção: o olhar é desviado do que está fora e levado para o que se passa no próprio pensamento.

E é, sobretudo, um conjunto de ações. Práticas feitas por alguém sobre si mesmo, com as quais ele se modifica, se purifica, se transforma. Foucault cita exemplos que atravessam séculos de textos antigos: técnicas de meditação, exames de consciência à noite, a memória do que foi feito no dia, a verificação das representações que chegam ao espírito.

Essas práticas tinham horário, mestres e escolas. Não eram um alívio. Eram trabalho.

Por que se fazia antes de se saber

A pergunta que a aula levanta é de ordem. Por que, para os gregos, ocupar-se de si vinha antes de conhecer a si?

A resposta de Foucault passa pelo que ele chama de espiritualidade. Nessa tradição, a verdade não é dada a qualquer um que simplesmente aplique um método. Para ter acesso a ela, o sujeito precisa antes mudar. Precisa se deslocar, se exercitar, tornar-se diferente do que é. A verdade, quando chega, também muda quem a recebe.

Por isso o trabalho vem primeiro. Não se trata de descobrir um eu escondido e depois decidir o que fazer com ele. Quem se exercita já está se tornando a pessoa capaz de ver alguma coisa.

Foucault situa uma virada nesse arranjo e a chama de "momento cartesiano". A partir dele, o acesso à verdade passa a depender apenas do conhecimento. O sujeito pode ser quem for, basta seguir o método. O "conhece-te" ganha o centro. O cuidado de si sai de cena, a ponto de hoje soar como algo menor, quase um luxo.

Cuidado de si não é autocuidado

Aqui entra uma confusão comum em português. "Autocuidado" hoje nomeia hábitos de bem-estar: dormir bem, desacelerar, se dar um presente. O cuidado de si de que Foucault fala é outra coisa.

Não visa conforto. Visa uma transformação, e muitas vezes desconfortável. Também não é solitário. Nos textos antigos há sempre um segundo: o mestre, o amigo que fala com franqueza, Sêneca escrevendo cartas a Lucílio. Ninguém se examina sozinho por muito tempo sem acabar confirmando o que já pensava.

E, principalmente, Foucault não estava recomendando nada. Ele fazia história. Queria mostrar que o hábito moderno de procurar a verdade de si numa interioridade escondida, e de esperar alívio ao confessá-la, é um arranjo entre outros. Houve uma época em que a relação consigo era pensada como exercício, e não como escavação.

A escola existencial de psicoterapia herdou parte dessa pergunta: o que uma pessoa faz consigo antes de saber quem é.

A pergunta que fica

Nas três camadas de Foucault, o conhecimento de si nunca aparece como ponto de partida. Ele é o que resta depois de um tempo de trabalho. Para o grego, perguntar "quem sou eu" antes de ter feito alguma coisa consigo seria começar pelo fim.

Fica a pergunta para quem lê. O que você faz consigo todos os dias, sem perceber que isso te forma? E se tentasse se conhecer a partir daí?


Epimelea tira o nome dessa expressão grega. É um aplicativo construído em torno da escola existencial. A conversa continua de um encontro para o outro, e o arquivo é criptografado no dispositivo e pertence a quem o escreveu.

O aplicativo: psicólogo IA, acompanhamento psicológico online


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