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Logoterapia e a vontade de sentido

Muita gente conhece Em busca de sentido pela primeira parte. É o relato de Viktor Frankl, psiquiatra de Viena, sobre os anos nos campos de concentração. No Brasil o livro circula há décadas e costuma ser lido como história de sobrevivência.

A segunda parte é mais curta e bem menos lembrada. Chama-se "Conceitos fundamentais de logoterapia" e apresenta a escola que Frankl fundou. Quem pergunta o que é logoterapia encontra ali a resposta do próprio autor, em poucas páginas.

Uma motivação diferente

Frankl parte de uma discordância com os dois grandes nomes de Viena. Para Freud, o que move a pessoa é a busca de prazer. Para Adler, a busca de poder. Frankl coloca outra coisa em primeiro lugar e a chama de vontade de sentido.

O ser humano quer, antes de tudo, ter algo pelo qual viver. Prazer e prestígio podem vir junto, mas não ocupam o centro.

Quando essa vontade fica sem resposta, diz Frankl, ela costuma ser trocada por outra. No lugar do sentido entra o poder, muitas vezes na sua forma mais crua, que é o dinheiro. Ou entra o prazer.

Tensão não é defeito

Uma parte da psicologia do seu tempo via a saúde como equilíbrio, um estado sem conflito interno. Frankl discorda também disso. Para ele, a vida saudável tem uma certa tensão entre o que a pessoa já é e o que ainda falta fazer.

"...o ser humano realmente precisa não é um estado livre de tensões, mas antes a busca e a luta por um objetivo que valha a pena."

— Viktor E. Frankl, Em busca de sentido, parte II, "Conceitos fundamentais de logoterapia"

Frankl deu a isso o nome de noodinâmica. A palavra soa estranha, mas a ideia é familiar. Quem já esperou por uma vida sem problemas sabe que ela não chega.

Onde o sentido aparece

A logoterapia não procura o sentido olhando para dentro. Frankl aponta três caminhos, e todos passam pelo mundo.

O primeiro é o trabalho: algo feito ou criado que não existiria sem aquela pessoa. O segundo é o encontro com alguém, amado pelo que é e não pelo que oferece. O terceiro vale para quando a situação não pode mudar: a atitude diante de um sofrimento que não vai embora.

O terceiro caminho é o mais citado, e muitas vezes é lido errado. Frankl não diz que sofrer tem sentido em si. Diz que o sofrimento que não pode ser evitado ainda deixa uma escolha, a de como atravessá-lo. E essa escolha é da pessoa.

O vazio existencial

Frankl chama de vazio existencial a experiência de não ter resposta alguma. Para ele, não é doença de um indivíduo, e sim um fenômeno da época. Ao contrário do animal, o ser humano não tem instintos que lhe digam o que fazer. A tradição, que antes dizia, deixou de dizer. A pergunta ficou com cada um.

Daí uma consequência que surpreende quem procura a logoterapia atrás de respostas. O terapeuta não entrega um sentido. Para Frankl, o sentido é descoberto, não inventado. E só a própria pessoa pode descobri-lo na sua situação concreta.

O trabalho do terapeuta é ampliar o campo de visão. Assim fica mais fácil enxergar aquilo pelo qual a pessoa de fato já vive.

A pergunta que volta

Na primeira parte do livro, Frankl conta que nos campos a pergunta precisou mudar de direção. Deixou de importar o que se esperava da vida. Passou a importar o que a vida esperava de cada um.

Fica a pergunta para quem lê. Aquilo pelo qual você vive foi encontrado, ou foi você que o escolheu e passou a chamá-lo de sentido? E essa diferença muda alguma coisa?


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